Para começar…

O que significa conhecer a si mesmo? E como se faz isso?

Talvez a última fronteira do conhecimento seja o conhecimento interior. Mesmo quando tivermos tecnologia suficiente para olhar para os primeiros fragmentos de luz do Big Bang e entender todo mecanismo do universo, provavelmente ainda estaremos arranhando a superfície do entendimento sobre nosso universo interior, pois não existe tecnologia que possa substituir a luz que nossa própria consciência necessita projetar sobre nós para encontrarmos uma resposta sobre quem nós somos.

Quais são as três habilidades para o autoconhecimento?

Conhecer a si mesmo significa:

  1. identificar o que está acontecendo internamente (como pensamento, sentimento, emoção, impulso, etc.) diante de um evento e
  2. ter a habilidade emocional para lidar com as suas respostas diante dos desafios da vida.

Essas duas habilidades emocionais dependem essencialmente de uma terceira habilidade, ainda mais complexa, que é aprender a diferenciar entre o que são os acontecimentos da vida e o significado que damos a eles, ou seja, como internalizamos o acontecimento e o transformamos em uma experiência muito particular.

Para explorar esse assunto, vamos criar uma diferenciação entre duas terminologias: existem os acontecimentos ou eventos (que a vida oferece) e outra coisa são as experiências ou vivências (que é a forma como tomamos o acontecimento e construímos sobre ele um significado – atribuímos em sentido e então experimentamos o acontecimento dentro de uma perspectiva definida por nós mesmos).

Os acontecimentos são os eventos em si. As experiências são a forma particular como recortamos os acontecimentos.

O grau de maturidade emocional de uma pessoa pode ser avaliado pela capacidade que ela tem em perceber que tudo que vivenciamos é, ainda que inconscientemente, construído por nós, ou seja, é uma dentre muitas interpretações possíveis, sendo algumas mais drásticas, outras mais amenas.

Isso fica bastante evidente quando nos damos conta que é bastante comum duas pessoas interpretarem um mesmo evento de forma bastante diferente – uma acha graça, a outra acha trágico, uma se alegra enquanto a outra se preocupa, etc.  Qual das duas está certa? As duas estão certas dentro do significado que deram ao acontecimento.

As tradições milenares do oriente afirmam que os eventos são vazios de sentido, ou seja, somos nós que construímos um significado para cada coisa. A neurociência e as ciências quânticas corroboram com essa perspectiva.

Esse princípio é tão importante que vamos repetir: não existe um significado correto ou incorreto para cada evento. O que existe é uma construção de sentido que fazemos a todo momento, para cada experiência que estamos vivendo. Se você entendeu isso, parabéns! Esse é o princípio fundamental de todo processo de autoconhecimento e transformação interior.

Lá se foi a ideia de mundo objetivo…

Em um primeiro momento essa afirmação pode parecer estranha e até desconfortável, pois a nossa cultura e o senso comum nos fazem crer que existe um mundo objetivo, onde cada coisa é o que é e isso não depende de nenhuma interpretação.

Por exemplo, podemos pensar que qualquer pessoa que vê uma cadeira entenderá o que aquilo é e o que aquilo faz e ninguém pode dizer que isso é simplesmente uma interpretação. Mas, se pararmos para refletir um pouco, mesmo  a cadeira tendo sido feita para aquela finalidade, ela pode ter outras funções,
que faz com que assuma outros significados: pode ser uma escada, pode ser um escudo, pode ser mesa, pode ser um esconderijo, e até um carro, durante uma brincadeira…

Nós poderíamos pensar então que ela É UMA CADEIRA, mesmo que alguém resolva dar um outro uso ou significado para ela. Mas desde o princípio, o significado é uma construção. Para a formiga, uma cadeira não tem o mesmo sentido do que para o cupim ou para o ser humano. Portanto, o significado está
nos olhos de quem vê e não nas coisas em si.

Então, voltando ao que significa conhecer a si mesmo: reconhecer e saber lidar com as suas respostas diante dos acontecimentos da vida. E isso depende de saber diferenciar os eventos do significado que a pessoa atribui a eles.

Nessa última frase está a essência e o motivo mais profundo do autoconhecimento.

É necessário que a pessoa perceba que os acontecimentos da vida disparam dentro de si mecanismos automáticos de resposta que são baseados em interpretações daquele padrão de acontecimento.

Assim se descobre que é possível lidar com o sofrimento que até então era atribuído ao acontecimento e que na realidade está mais relacionado com a interpretação ou significado que atribuímos ao acontecimento.

O homem é a medida de todas as coisas

Esta frase é do filósofo grego Protágoras. Nós somos, de fato, a medida que cada um de nós utiliza para medir, para avaliar, para discernir todas as coisas.

Dizendo isso de outra maneira, o mundo ao nosso redor (e tudo que a nossa mente alcança) é um mero reflexo de nossos próprios valores.

Ao invés de olhar o mundo, nossos sentidos capturam impressões para fazer surgir, diante de nossos olhos, um mundo à nossa imagem e semelhança.

O mundo que vemos é um espelho, o tempo todo, onde projetamos aspectos de tudo aquilo que temos dentro.

Somos, portanto, coautores do mundo que testemunhamos.

Nosso lado violento vai estar sempre encontrando gente para se sentir provocado. Nosso lado desanimado vai ter o seu radar super desenvolvido para perceber as dificuldades que se apresentam. Nosso lado orgulhoso vai valorizar o que fazemos como sendo superior ao que os outros fazem, e assim por diante.

O mundo nos oferece apenas gatilhos que, por ou afinidade vibratória trazem para a superfície os aspectos de nós mesmos que carregam um significado específico para aquilo.

Freud disse em uma ocasião que, quando Pedro fala de João, podemos descobrir muito mais sobre o próprio Pedro do que sobre o João, pois não sabemos se o que foi dito desse último é verdadeiro ou não, mas ao falar, Pedro expõe sua visão de mundo, ou seja, onde o seu radar está mais desenvolvido (o que é o mesmo que dizer qual é o aspecto de Pedro que mais se expressa).

O mundo como experiência individual e compartilhada

Então o mundo que conhecemos é ao mesmo tempo uma experiência individual – experiência que estamos construindo a cada momento – e também compartilhada, já que nossa visão se forma a partir da visão de outros: começa com nossos pais, com a construção de sentido que eles trazem, depois com o que a sociedade vai nos apresentando como valioso ou inútil e por fim, quando já começamos a perceber a nós mesmos como ocupando um lugar no mundo, nos faz compartilhar nossa visão no meio em que estamos mais inseridos (nas nossas “tribos”).

Embora cada um construa a sua própria experiência e significado do mundo, não somos ilhas… formamos arquipélagos com aqueles com quem compartilhamos de uma visão parecida.

Daí vem a frase “diga-me com quem andas e eu te direi quem tu és”. Se o mundo ao nosso redor é um espelho, o que dizer então das pessoas com quem andamos junto? Obviamente que as afinidades podem ser vistas como um fragmento de nós mesmos que projetamos sobre elas.

Entender é o primeiro nível da mudança

Entender esses conceitos é parte fundamental, mas é preciso familiarizar-se com essa nova forma de perceber o mundo e a nós mesmos para que uma mudança interior profunda possa acontecer.

Nos artigos seguintes, vamos pouco a pouco explorar as implicações dessa mudança de percepção.

Nosso próximo artigo (os cinco aprendizados do autoconhecimento) vai abordar os motivos para conhecer a si mesmo, ou seja, que benefícios esse estilo de vida, baseado em uma percepção interior da vida, pode nos proporcionar.