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Não parece estranho que existem centenas de textos que volta-e-meia são compartilhados nas redes sociais ensinando como se proteger da inveja dos outros e pouquíssimos textos falando a respeito do mal que a nossa própria inveja nos faz?

O título original desse artigo era “só eu tenho inveja?”, fazendo referência a esse provável ponto-cego da nossa cultura.

Apesar de vivermos em uma sociedade fortemente competitiva e narcisista, parece que nos escapa a percepção óbvia de que precisamos olhar para o nosso lado mais aversivo com absoluta naturalidade e destemor, a fim de que isso possa ser curado, ao invés de seguir adoecendo nossas emoções e angustiando nosso sentido de competência pessoal.

Todos convivemos com dois lados de nossa natureza. Temos um lado que é orientado a pessoas, que é empático, sociável e se identifica com os seus pares. Esse é o aspecto mais forte de nossa natureza, que nos torna realmente humanos e que fez possível nos tornar-nos a espécie dominante do planeta (apesar das bactérias terem todo direito de reivindicar esse título também).

Outro lado da nossa natureza é individualista, orientado às suas próprias necessidades e por consequência, nos faz dispostos a lutar com quem for preciso para encontrar o nosso direito legítimo de se estabelecer no mundo, e com isso garantir a nossa continuidade, através de nossa prole e de nosso legado. Esse é o lado mais agressivo de nossa natureza e tende a entrar em evidência sempre que as nossas necessidades básicas não são satisfeitas.

Muito já se discutiu qual das duas é, de fato, nossa natureza e qual é adquirida pela força da cultura. Para Rousseau e Carl Rogers, nossa natureza é essencialmente boa… Já para Thomas Hobbes e Freud, somos predadores por natureza. A síntese disso é que somos, ao mesmo tempo, empáticos mas também centrados em nossas necessidades, uma coisa não exclui a outra.

Somos sociáveis quando nos sentimos bem, quando nos sentimos seguros, amados e protegidos. E nos tornamos agressivos, invejosos ou destrutivos quando nos sentimos ameaçados.

Se negarmos esses sentimentos negativos e fingirmos que eles não existem, construímos uma relação autodestrutiva com os nossos medos, uma relação que mais cedo ou mais tarde causa estragos, seja no convívio com as outras pessoas ou dentro de nós mesmos, desencadeando alguma enfermidade.

Negar a resposta instintiva àquilo que nos causa aversão é o mesmo que castigar um filho sem dizer o porquê. É como encerrar uma discussão sem ter entendido o ponto de vista do outro. Aí a raiva, a inveja ou qualquer outra emoção destrutiva encontra espaço para se fortalecer, pois a percepção da realidade que deu origem a esses sentimentos não foi colocada à prova.

Por isso o Cristo ensinava a não resistir ao mal. Quando se resiste e luta contra, ele se enrijece e luta também. Melhor que lutar é aprender a integrar nossa sombra, colocando a luz da reflexão, com aceitação e não-julgamento. As trevas se dissipam com a luz do entendimento, ou como disse o mesmo Cristo: “E conhecei a verdade e ela vos libertará”.

Carl Rogers observou que, um curioso paradoxo a respeito da natureza humana é que só podemos mudar aquilo que aceitamos como somos.

Mas por quê? Porque mudança envolve diálogo, troca de visões, para que o conflito aparente seja transcendido por uma visão mais abrangente. Isso se aplica a conflitos entre pessoas da mesma maneira que conflitos íntimos.

Não se trata de fazer com que a nossas visão “certa” vença o diálogo interior e faça a nossa visão “errada” e egoísta admitir sua ignorância. É mais complexo que isso: precisamos reconhecer a verdade fragmentada em dois pontos de vista e encontrar um novo entendimento que desfaça o antagonismo, uma síntese que transcenda a batalha interior.

Mas como fazer isso?

Primeiro temos que olhar com sinceridade para a nossa inveja. Ela reivindica algo que considera legítimo.

A inveja é o resultado de um sentimento profundo de impotência e de revolta sobre o que faz os outros alcançarem resultados que nós também gostaríamos, mas que nesse momento parecem distantes.

Se você está com essa dor, pergunte a esse sentimento qual é o medo ou a insegurança que ele carrega; e o que poderíamos fazer para não ser vítima desse medo. Pergunte-se por que sentimos o outro como uma ameaça e desafie essa forma de encarar as relações interpessoais: precisamos ter concorrentes ou podemos transformá-los em parceiros e inclusive professores?

Dissolvendo a inveja

Você já reparou que existem pessoas cujas vitórias nós celebramos e outras pessoas sentimos inveja? O que diferencia umas das outras?

Muito simples: umas são “nossas”: nossos filhos, nossos irmãos, nossos pais, nossos amigos íntimos… nossos. Também podemos celebrar a vitória de quem joga no “nosso” time, ou pessoas pelas quais temos, de alguma maneira, uma identificação. E aqui estão as duas chaves para transmutar o chumbo da inveja no ouro da celebração:

Integre as vitórias dos outros, sentindo-se parte dessa história

Cada pessoa que vence, cada pessoa que abre caminho, cada pessoa que alcança resultados naquilo que se propôs, é mais uma pessoa que se soma ao time em que nós queremos estar: o time das pessoas que atingem os seus objetivos.

Eu, você, e todas as pessoas do mundo queremos estar nesse time, cada um buscando uma coisa diferente, motivado por coisas diferentes, mas todos temos algo que cultivamos e que trabalhamos para que floresça. Talvez, a princípio, seja necessário um pequeno esforço para aprender a torcer para que cada pessoa se realize, porque ainda não integramos essa pessoa no time dos “nossos”.

Trata-se de uma pequena mudança na forma de olhar, mas que nos permite ser tomados de alegria e motivação, ao invés de inveja e tristeza. E não pense que esse espaço que o outro ocupou pertence a você. A natureza, o mundo, são suficientemente abundantes e diversos para prover a todos o seu próprio espaço… A flor que cultivamos é única e vai trazer um aroma inconfundível quando finalmente florescer.

Ninguém compete com ninguém; competimos contra nossa própria inércia, nossos medos, nossas crenças limitantes. Elas sim são nossas concorrentes e são o que nos separa da melhor versão de nós mesmos e dos nossos objetivos.

Permita que a história pessoal de cada um o cative

Quando a inveja começar a queimar por dentro, busque trazer a pessoa para dentro de você – coloque-se no lugar dela, conheça sua trajetória, permita-se cativar por sua história pessoal. Quando uma pessoa é importante para nós, é porque fizemos isso: a “importamos” (trazemos para dentro) de nós.

E nunca esqueça que, visto bem de pertinho, toda pessoa tem algo incrível para nos ensinar.

Mas e o que eu faço com a inveja dos outros?

Ela machuca mais a própria pessoa que é vítima disso, do que os demais. Não a condene, afinal isso é parte da nossa natureza, quando nos sentimos ameaçados. Se possível, tente demonstrar ao outro que é seu aliado e não seu inimigo. E que o Sol nasce para todos… Torne-se um incentivador das pessoas e poderá celebrar com elas os frutos de suas vitórias.

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