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A vida é uma grande viagem arquetípica: cada paradeiro nos remete a uma viagem interior, onde nos encontramos com algo da nossa natureza que busca encontrar expressão no real. E assim o nosso mundo se constrói, diante de nossos olhos, à nossa imagem e semelhança.

Os monstros são assim. Eles figuram em todos os mitos, lendas e contos, até nos filmes e novelas. Existem os monstros como personagens míticos, de aparência horrenda, defeituosa ou animalesca e existem os monstros de boa aparência e sorriso no rosto, que nas sombras executam suas atrocidades.

Um aspecto interessante sobre os monstros das lendas é sua mais completa falta de compaixão e empatia com as demais criaturas. Esse é um arquétipo presente em nosso imaginário, que reproduzimos em pequenas atividades do dia-a-dia.

Para que exista a conexão com essa dimensão mais assustadora de nosso mundo interior, é importante que o monstro seja uma criatura desconectada de qualquer possibilidade de mudança, ou seja, não é algo que possa ser entendido, aceito e integrado com a comunidade. Por isso, nos desenhos infantis, como o Tarzan, (só para citar um, mas acontece com muitos desenhos onde existem animais que falam), enquanto as demais criaturas tem a habilidade de se comunicarem uns com os outros, o vilão, incorporando o mal, não tem a habilidade da fala – ele é simplesmente selvagem, cruel e assassino.

Pode ser que muitas vezes na nossa vida estejamos corporificando o mal nas pessoas de nosso convívio. E isso pode ser feito por vários motivos: pode ser que os valores e visão de mundo de alguém não se encaixem na nossa descrição da realidade; pode ser que sintamos a necessidade de defendermos o que consideramos correto ou nosso por direito, mas, sem conseguir concordar com as disparidades geradas no mundo nem com a crença de que estamos sendo amparados por um direito divino, outorgado por uma força maior, assim podemos inconscientemente associar o “outro time” à personificação do mal.

É nesse momento em que perdemos as pessoas de vista, desumanizando-as. Essa é a forma mais fácil de defender uma verdade sem sentir-se contraditório e injusto.

Mas para desumanizar precisamos recorrer às velhas estratégias de nossos ancestrais, em seus contos ao redor da fogueira. Estratégia tão repetida por todas as estórias de sucesso do cinema: o rival precisa ser visto como a besta selvagem que está além de qualquer tentativa de redenção.

Em geral, quando assumimos uma posição de divergência frente a um grupo acabamos fazendo algo mais ou menos assim: perdemos de vista o ser humano complexo e contraditório, que erra mas que aprende, que tem anseios mas também tem autocrítica, e enxergamos ali o expoente de todo o mal que existe.

É assim como encontramos as atuais cruzadas pelo bem: negros, pobres, comunistas, gays, mulheres foram os primeiros alvos das inquisições. Mas também os brancos, ricos, capitalistas, heterossexuais, ou seja, os supostos grupos dominantes também são alvo da desumanização do olhar e da crítica que externaliza o ódio.

E antes que você diga que “eles têm que ser criticados”, referindo-se a qualquer um dos grupos dos quais você não faz parte, pense se não é exatamente a falta de diálogo sobre as diferenças que segue aumentando o abismo entre pessoas que estão, ainda que de formas distintas, buscando o mesmo resultado, que é encontrar o seu lugar no mundo e assim ser feliz.

Se você defende ou discrimina qualquer pessoa, seja porque ela anda fedorenta e rasgada, ou porque ela usa um terno de alguns milhares de dólares, (ou seja, se você a classifica segundo os seus próprios preconceitos) em ambos os casos, é a sua projeção do mal que você está vendo… e perdendo a pessoa de vista, bem diante dos seus olhos.

Existem pessoas que fazem o mal… sim, em todos os grupos. Mas não é porque pertencem a esta ou àquela tribo, etnia, ideologia… fazemos o mal porque somos humanos.

Humanos que fomos moldados para repetir uma cultura imperfeita, de um tempo histórico imperfeito. Mas, como humanos que somos, estamos também em constante desconstrução e mudança, e também precisamos de ajuda com isso. E a ajuda possível se dá com o diálogo, com confrontação das diferenças, inclusive… mas entre iguais, ou seja, sem considerar que o outro faz parte do “outro time”, porque esse olhar é o que desumaniza.

Veja só a contradição humana: se você erra, é porque se engana; mas se o outro erra, é porque é mau-caráter; se o seu filho apronta na escola, é porque está em fase de descobertas; mas se é o filho do outro que apronta, é porque não ganha educação em casa. Ou seja, o outro lado do muro sempre é a projeção do mal que carregamos dentro e que queremos que esteja fora de nós.

Em todos os grupos há pessoas maravilhosas, bem dispostas, sedentas por produzir o bem dentro do que consideram ser o melhor. Mas a necessidade de criar monstros coloca todos em um mesmo pacote, lacra a caixa e escreve um rótulo por fora… em outras palavras, desumaniza, descaracterizando a singularidade e o nível de maturidade de cada indivíduo.

As ações que produzem o mal devem ser combatidas, mas pontualmente, não por amostragem. É necessário superar a fase de atribuir as más ações como pertencentes a este ou àquele grupo. O mundo é muito mais complexo que isso e não cabe (na verdade, nunca coube) em nenhuma teoria social nem em conversa de boteco.

Por isso, desconfie dos monstros que aparecem na sua vida. Se aproxime daqueles de quem tem rechaço ou considera que são inadequados e ruins. Olhe bem de perto e dialogue, descubra o mundo delas, com olhar curioso, não inquisitivo. E assim você pode encontrar a mais genuína humanidade antes perdida… em você mesmo.

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